sábado, 17 de outubro de 2015

Kettering.

                A última vez em que te vi foi há um tempo. É difícil lembrar-me do tempo exato, levando em conta todo o esforço que fiz para apagar sua existência, então espero que entenda. Eu estava no ônibus, voltando para casa. O cansaço já batia a porta, então resolvi encarar a janela, na esperança de que deixar meus olhos parados compensasse eu estar em pé. Não prestava atenção em muita coisa, quiçá no movimento das pessoas. O clichê mais óbvio aconteceu, e eu logo te avistei na calçada, com as mesmas vestimentas de sempre. Um short curto, uma blusa branca genérica e seu tênis de cano alto. Seu cabelo parecia mais brilhoso, talvez mais azul, mas ainda era o mesmo. Não tive a chance de olhar sua face, mas suponho que não houve mudanças significativas (fora o novo piercing). Nada havia mudado. Você até andava da mesma forma, com a bunda arrebitada.
                Fazia sentido você estar ali, visto que era perto de sua casa, assim como era da minha. Porém, mesmo com toda a lógica envolvida, encolhi-me. Um espasmo involuntário, talvez um mecanismo de defesa, fez com que tivesse medo de você me achar. Medo de você, inexplicavelmente, parasse e olhasse diretamente para mim, em um ônibus em movimento. Nos três segundos daquele encontro, na minha mente, era algo plausível e até bem provável de acontecer. Porém, antes de qualquer coisa, eu já tinha perdido sua silhueta. Pensei em parar no ponto mais próximo e correr até você, perguntar como estava, se a faculdade ia bem, mas percebi o quão patético seria. E o quanto aquilo iria me dilacerar. Era tarde demais. Tudo o que pude fazer foi aceitar seu desaparecimento em meio à rua, na sua pressa de sempre. O ônibus seguiu caminho, e eu fui junto. 

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

I Am Machine.

                I am a copycat.
                I imitate my surroundings in the hope of finding myself.
                I desire other’s insanities, so I can then build one of my own.
                I have no clue if I am original at all.
                I wonder how many ideas I have mimicked.
                I believe I’ve been this since the beginning.
                I can only love if the feeling is existent.
                I can only walk to someone that is already there.
                I gasp to be one.
                I define my life as a compilation of others.
                I am nothing more but a copycat. 

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Breezeblocks.

A calmaria
perante a tempestade,
montando ondas
que quebram lá no fim.

Pensei em pegar no violão
aquele que logo se foi,
mas as ondas
essas já chegavam.

O barco tremia
e água entrava,
a maré subia
e as ondas batiam.

Joguei a bóia
e pulei fora,
se eu ficasse mais
as ondas me consumiam.

Olhei triste
para o meu barquinho,
que de tanto apanhar
a onda levou.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Nomad Motto.

                Por um tempo, desejou que um raio tivesse a fineza de lhe atingir no meio da rua. Pensava que, com a súbita passagem de milhões de correntes elétricas em seu corpo, algo iria mudar. Não tinha a esperança de causar um buraco em sua memória, mas talvez que pudesse ficar em coma, numa cama de hospital qualquer. Deitado, sem qualquer noção de tempo, ignorando as noites virando dias. Inconsciente, somente.
                Quando chegou no seu destino, percebeu que a natureza nada tinha com seus devaneios. Se algo o incomodava, teria que resolver-se sozinho. Sentou-se e pediu um café. Puro, sem o leite de sempre. Imaginou que apenas um café amargo conseguiria ajudá-lo. Pegou seu caderninho e deixou sua bolsa no assento. Leu os garranchos lá escritos, há tantos anos que mal podia lembrar de onde os havia desenhado. Podia observar as folhas já gastas, mesmo com todo o cuidado que mantinha. Ficou alí, olhando para suas letras formando palavras por alguns minutos. Finalmente, deixou sua transe de lado e pegou o lápis. Continuou as histórias, como se nunca tivessem acabado. Escreveu para escapar da realidade que o cercava, inventando finais alternativos, enganando sua velha memória.
                Talvez fosse melhor colocar algumas colheres de açúcar, ao menos. Já estava amargo o suficiente por dentro.  

domingo, 16 de agosto de 2015

C'mere.

O tempo havia parado.
                Eu não tinha feito nada, na verdade. Demorei algum tempo até notar que seu olhar não havia focado em algo, mas sim parado. Observei-o por algum tempo, e percebi o quão inexpressivo era. Não havia mais cor em seus olhos. Seu rosto demonstrava um certo cansaço, provavelmente devido ao longo dia que tivera. Sua mão direita segurava a esquerda com bastante força, tanto que deixava sua palma branca. Seus pés estavam esticados, de um modo que a sola não encostava no chão. Os ombros pareciam rígidos, diferentes dos que eu estava acostumado.
                Durante aqueles minutos, pude notar diversas coisas que não condiziam com a pessoa que eu conhecia há oito anos. Se o tempo não tivesse parado, não iria tomar conhecimento de seu claro nervosismo, mesmo que tivesse passado despercebido por mim. Se eu não conseguia dormir nas últimas noites, descobri que ela também passava pelos seus maus bocados. A dor não era exclusiva minha, embora tivesse diferentes razões. 

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Word by Word.

                Tento entender em como sua voz ecoa em minha cabeça, lembrando toda a falta que você me faz. Se olho para a lua que aparece na madrugada, silenciosa e brilhante, lembro de como você surgia através do portão, mirando-me com olhos cintilantes. Se ando pela rua, procuro pelas suas costas meio longas (ou pela sua bunda). Se estou sozinho em meu quarto, escuto músicas que me lembram os cantos da tua boca, com pequeninas covas. Se leio livros, invento diálogos em que discutimos sobre qual é a melhor comida. Se vejo um filme, imagino seus pés enrolados nos meus, em uma noite fria de inverno.
                Se escrevo, tento de todas as maneiras evitar meu pensamento em você. O que, uma hora ou outra, acaba se tornando impossível.