quarta-feira, 28 de maio de 2014

Pesadelo acordado.

Te vejo
e te quero.
Te olho
e te desejo.
Toda vez que penso,
vivo outra vez.
Minha rotina é essa:
conversar com você
aqui
na minha imaginação.
Se você está aí,
improviso.
Sonho e
rapidamente
te tenho.
Olho minhas mensagens
como quem só tem
mais alguns minutos de vida.
Espero sua voz
como um surdo espera
ouvir o primeiro som.
Te procuro na rua
como se só você
existisse.
Se isso não é amor
o que é então?
Sofrer também é amor.
E sofro.
Sofro.
Sofro até não
poder mais.
Estou a deriva
do nosso amor
que está por ai
passeando
de férias.
Espero aqui
na minha cama
ainda vazia com sua ida,
seu corpo
para me esquentar
nesse frio que é
minha vida sem você.

Dia 28 de Maio, 2014.

Querido diário,

hoje foi o meu primeiro dia fora da minha cama. Digo, por vontade própria. Foi também a primeira vez que fui ao cinema como solteiro, em quase três anos. Eu fiquei animado com a ideia de finalmente sair de casa e esquecer um pouco tudo o que está acontecendo. Devia ter imaginado o que aconteceria.
Até a metade do filme, tudo ocorreu bem. Me desliguei totalmente do mundo que eu habitava e somente assisti a telona. O problema foi ouvir todos os beijos sendo dados ao meu lado, por casais diversos. Foi duro ouvir aquilo e saber que não tenho mais alguém comigo. Antigamente, eu ria disso, dizia que as pessoas precisavam respeitar os outros que estavam no cinema e guardar suas afeições para mais tarde. Porém, nunca tinha percebido o quanto isso faria falta para mim. Essa demonstração de afeição. Ter essa afeição. Mal consegui prestar atenção depois disso, sempre ouvia aqueles estalos típicos de beijos rápidos. Sempre me lembrava de tudo. De como era ter alguém para agarrar no cinema e roubar beijos. Fiquei triste, mas não demonstrei. Não queria estragar mais uma noite.
Saindo da sala, me deparei com um fantasma. Na minha frente, ali, parada, estava ela. Não tive como me preparar. Meu coração parou por cerca de três segundos. Respirei e pisquei. Vendo melhor, não era ela, só tinha o mesmo tipo de cachecol que ela usava. A partir daí, comecei a vê-la em todos os lugares, sozinha, acompanhada, muitas vezes com roupas parecidas. Chegou um momento que simplesmente parei de andar e olhei para cima. Vozes ocupavam minha cabeça. Frases aleatórias, memórias, todas com uma só voz. Pensei em ir pra rua e chorar, já que estava chovendo. Realmente pensei. Mas acho que já estou seco por dentro. No máximo, iria ficar como estava. Respirei e pisquei novamente. Olhei para frente e segui. Não olhei para ninguém, só segui. Peguei o táxi mais próximo e vim para casa. Me arrependo de ter ido, Tom. Eu pensei que hoje seria um dia para ficar longe de tudo, mas só consegui ficar mais perto ainda. Senti medo de encontrá-la ocasionalmente e ver o que não queria. Toda esquina era isso. Aquele frio na barriga de ver o que a sua mente já sabia. Não aguentaria. Provavelmente entraria em colapso e cairia ali mesmo, no chão.
Não sei mais o que fazer. Essa tentativa me fez repensar tudo o que eu pretendia fazer. De que adiantaria seguir em frente? Me diga. De que adiantaria acordar um dia pensando que estava bem e sentir um desespero ao ver sua sombra na rua? Está tudo muito confuso, Tom. Estou perdido. Mais do que já estava. E parece que ela não percebe isso, ou que finge muito bem não perceber. Parece que a cada dia ela se afasta mais de mim. Tenho a impressão dela achar que eu não a amo, ou que não estou sofrendo por ela. Sei que fiz muita besteira com ela, mas o que posso fazer? Não há mais nada a se fazer? Somente essa escuridão contínua que me ronda? Não tenho palavras para medir o quão arrependido estou de ter a feito sofrer durante todos esses anos. De não estar mais presente por ela. De não dizer que a amava o suficiente. De aceitar um convite seu e depois recusar, em cima da hora.


Atenciosamente,
Victor Luiz.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Dia 27 de Maio, 2014

Querido diário,

queria pedir um conselho a você. Acho que cheguei no momento da aceitação após um término de relacionamento. Antes disso, eu cheguei até a achar que isso tudo era uma grande brincadeira por parte dela (embora de mau gosto) e que alguma hora ela iria me contar. Não percebi o quão idiota isso soava. A minha rotina está literalmente quebrada. Faltei a mais uma aula e acho que posso estar encrencado, ainda tenho que conversar com minha professora. Ela é a única professora com quem eu tenho uma afeição, mas ainda assim temo por uma reprovação. Não sei exatamente o motivo da minha falta. Acordei antes do despertador, como tenho feito essas semanas, esperei-o tocar e desliguei-o. Fiquei deitado por cerca de quinze minutos e declarei como morto esse dia. Novamente, passei o dia inteiro sem fazer absolutamente nada. Assisti duas temporadas de um sitcom, ontem e hoje, e só. E, é claro, esperei por aquela ligação que iria mudar minha situação. Esperei por muitas coisas, na verdade. Esperei pelo balãozinho do chat ficar vermelho. Esperei ouvir sua voz. Esperei um “sinto sua falta”. Esperei que o dia passasse, na esperança de uma noite melhor. Em vão.
Perdi mais um dia. Podia ter feito alguma coisa, qualquer coisa. Até o cinema, com vários filmes em cartaz. Mas escolhi mofar dentro de casa. Escolhi não perder a possível chance dela me contatar de alguma maneira. Fato é: estou ficando louco. Essa espera me mata a cada minuto que passa, ainda mais com nenhuma melhora na situação. Olho freneticamente para o celular, meu feed e minhas mensagens. Cada vez que olho, fico desapontado. Estamos no mesmo lugar há três semanas. Parece que somos dois conhecidos, com pouca ou nenhuma intimidade. Sempre tenho a impressão de estar atrapalhando-a em alguma coisa, ou irritando-a, então dificilmente consigo prolongar algum assunto. Eu quero. Sempre quero conversar com ela, mas não consigo. Parece que agora temos essa barreira entre nós. É simplesmente horrível viver assim. Cultivamos uma amizade de oito anos, para terminarmos assim. É triste.
Também vi coisas que não queira. Na verdade, acho que era só uma questão de tempo até ver. A intimidade entre ela e o namorado cresce, enquanto a nossa continua enterrada. Ela me disse que ver seria muito pior do que imaginar. Acho que estava certa. Tentei me preparar para as mais diversas situações, até mesmo encontrar com eles na rua. Ela não quer que isso aconteça, mas sei que vai. Ou ao menos irei ver, um dia, a aliança deles colocada na sua mão. Vai ser brutal, obviamente, mas nem eu nem ela podemos evitar. Sei que eles são namorados e por isso tem intimidade. Sei que se beijam. Sei que se abraçam. Sei que se confortam. Sei que conversam sobre trivialidades. Sei que dizem afetos um ao outro. Eu sei. Estou ciente. Não sou idiota e não quero ser tratado como um. Odeio essa pena que às vezes ela me demonstra, como se dissesse: “Coitado, não queria que você soubesse disso” ou “Sei que você vai achar alguém”. Se estão namorando, é porque gostam um do outro, tanto ela, como ele. É hipocrisia querer me convencer do contrário. Já disse isso para ela: se quiser namorar, namore. Mas, se for fazer isso, não finja que não está.
Acabaram de me ligar. Obviamente, meu cérebro iluminou-se todo e procurou por meu celular em todos os lugares. Fiquei frenético, ansioso por finalmente poder ouvir sua voz. Você sabe de quem eu esperava uma ligação. Porém, mais uma vez, decepção. Mais um balde de água fria.
Não sei se estou paranoico, mas tenho a impressão de ter alguém lendo nossas correspondências, Tom. Não acho que seja ela, mas acho que já não sei mais de nada. Queria poder saber quem é (e se existe mesmo).
Voltando ao início, qual conselho você pode me dar? O que devo fazer com relação a tudo? Esperar mais? Esquecê-la de vez? Entender que seremos somente “amigos”? Estarei esperando sua resposta. Quando a tiver, sabe onde me procurar.


Atenciosamente,
Victor Luiz.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Dia 26 de Maio, 2014.

Querido diário,

é possível alguém querer tanto uma coisa, a ponto de sonhar e acreditar veemente que é verdade? Mesmo após acordar? Eu realmente achava que não. Que era pura bobagem e que era preciso somente deixar de pensar no assunto. Provei-me errado.
Eu não costumo lembrar muito dos sonhos que tenho, salve alguns que me marcaram de alguma forma. Uns tenho periodicamente, outros deixam-me tão abalado mentalmente que tudo o que consigo fazer é encarar o teto por alguns minutos. “Isso foi real ou não?”. Francamente, já não sei mais distinguir sonho e realidade. Acho que desisti após tantas repetições de situações que nem sequer haviam acontecido. Volte e meia me pegava olhando para um ponto fixo, pensando: “Eu já estive aqui?”, mesmo sem nunca ter cogitado estar naquele lugar, ou sequer conhecido. As coisas pioravam quando as situações não eram assim tão boas, vide meu próprio término de namoro. Isso me levava a crer em diversas questões, como destino e “tudo está premeditado”. Será que está? E se estiver? Posso mudá-lo? Quero mudá-lo?
Meu último sonho me fez acordar assustado. E suado. Muito suado. Por alguns momentos jurei que aquilo tinha acontecido no dia anterior. Infelizmente, não aconteceu. Ela estava tão linda, Tom. Usava o vestido azul que compramos juntos, após uma grande relutância por sua parte. Eu amava aquele vestido: acentuava tudo o que tinha que acentuar sem corpo milimetricamente esculpido de morena, sem passar nenhuma mensagem errada. Sem contar que combinava com suas mechas no cabelo, de mesma cor. Era coisa de outro mundo, posso te garantir. Pena só ter visto em uma ocasião. O sol realçava seus olhos cor de mel, que me miravam fixamente. Ela parecia apreensiva, querendo contar alguma coisa, mas ainda procurando as palavras certas. Em um certo momento, segurou minhas mãos e me puxou para um abraço. Ficamos ali, parados, por cerca de três minutos, sem falar absolutamente nada, somente ouvindo nossas respirações. Deitou sua cabeça em meu ombro e colocou seus lábios ao lado, sussurrando: “Estou grávida”. Lembro de ter um milhão de coisas passando pela minha cabeça, mesmo sonhando. Logo, raciocinei o mais óbvio: a criança não era minha e ela quis me dar a notícia pessoalmente. Fiquei com muita raiva, na verdade. No sonho e fora dele. Sei disso pois, quando acordei, estava com o corpo e, principalmente minha cabeça, extremamente quentes, apesar de fazer dezoito graus lá fora. A realização de que ela tinha se relacionando com outra pessoa e ficado grávida me fez querer sair daquele abraço e matar a primeira pessoa que eu visse na frente. A raiva tinha me dominado completamente, mas fiz um esforço para controlá-la. Afinal, eu tinha me comprometido a apoiá-la em qualquer situação. “Ele já sabe?”, perguntei, ainda recuperando minha voz, tentando parecer o mais calmo possível. “Não, você é o primeiro a saber”. Fiquei inquieto com aquela indagação, por motivos óbvios. “Eu acho que o pai deveria ser o primeiro a saber”. Ela tirou sua cabeça de meus ombros e voltou a me olhar fixamente. Pude novamente ver aquele rosto tão perfeito a poucos centímetros de mim. Uma parte de seus cabelos cobria a parte direita de seu rosto. Eu amava como ela ficava desse jeito, mas coloquei-os de volta em seu lugar, atrás de sua orelha, um hábito que adquiri ao longo do tempo com ela. Finalmente, ela inspirou e disse: “Esse é ponto, Vic, você é o primeiro a saber.”. Eu tinha uma resposta pronta, caso ela me dissesse alguma coisa genérica, mas acho que só abri a minha boca e fiquei lá, parado. Eu não sabia se ficava triste ou feliz, Tom. Por um lado, ela poderia querer que nós voltássemos e que eu criasse nosso filho junto com ela, o que eu estaria mais do que disposto de fazer. Porém, ela também poderia só querer me contar e ir continuar vivendo a sua vida normalmente (poderia existir algo como cortesia nesse momento?). Escrevendo isso agora, não tenho ideia de qual poderia ter sido. Acho que nunca saberei.
Eu acordei logo em seguida, querendo voltar e continuar com meu sonho. Somei a raiva de antes com a de não poder voltar para lá. Lendo agora o que escrevi, peço desculpas por isso parecer com uma novela. Não foi minha intenção. Acho que eu só queria compartilhar esse sonho com você. E, claro, manter minha cabeça ocupada enquanto faço. Eu queria poder ter a certeza de que tudo vai ficar bem ou que as coisas vão se encaixar em algum ponto. Que vamos estar tomando um vinho em algum restaurante e lembrando da besteira que foi ficarmos longe um do outro. Eu queria. Mas não posso. Não sei o que vai acontecer amanhã, muito menos nessa semana. Não me entenda mal, sei exatamente o que eu quero que aconteça, mas não sei o que se passa na cabeça dela. Não tenho a mínima ideia. Acho que nunca tive. Mas acho que isso seria simples demais, não é?
Os dias passam devagar, demais para o meu gosto. Tudo o que eu quero que aconteça, não acontece. Será que perdi meu direito de ser feliz, Tom? Joguei minha chance pela janela? Acho que eu e ela sabemos qual a resposta. O que devo fazer, então? Não consigo mais ficar assim, tendo conversas que são medidas pela pouca intimidade, limitadas, enquanto almejo por somente algumas frases suas, que acabariam com tudo isso. Quando finalmente temos algum assunto, geralmente termina onde não queremos, voltando para a estaca zero. Eu aqui e ela lá. É isso que a vida reservou para nós? Estou tentando. Fico sempre por perto, para não haver engano sobre meus desejos, mesmo que isso seja contra a ética da situação. Puxo assunto quando eu mesmo sei que não vai dar em nada, ou sei como vai acabar. E não posso ter ódio da situação ou, até mesmo dela, mesmo que isso significasse um impulso para eu sair desse lugar. Odiá-la parece realmente tentador, mas não consigo amar e odiar alguém. Afinal, ela não fez nada de errado, só largou o que achava que a impedia de ser feliz, ou de viver sem ser magoada todos os dias. A vida é dela, e eu não posso impedir que ela viva, mesmo que isso signifique não estar mais com ela. Não posso impedir sua partida. Todos os meus sentimentos por ela estão na mesa. Todos os meus erros estão na mesa. Não há mais nada que eu possa fazer, a não ser ficar por aqui. Esperando. Esperando meu momento de ser feliz novamente. Com ela.
Ela faria isso por mim. Enfrentaria todas as barreiras e continuaria ali, esperando por mim. Passaria por cima da dor que é ver alguém que você ama feliz com outra pessoa. Como já fez antes. E por muito mais tempo do que estou sentindo. Devo isso a ela. Devo isso a nós. Devo isso a tudo de bom que ainda resta dela. Devo isso a minha felicidade de ver seu sorriso.
 Vou ficando por aqui, Tom. Tudo o que escrevo é pra ela, mas não posso forcá-la a fazer nada, muito menos ler algo que possa a deixar mal. Mesmo sabendo que ela não irá ler as coisas que escrevo, pelo menos você pode. Foi um prazer, como sempre.           


Atenciosamente,
Victor Luiz.

sábado, 24 de maio de 2014

Dia 25 de Maio, 2014.

Querido diário,

ainda não é dia vinte e cinco, mas sinto que vou esquecer logo tudo o que quero escrever agora (obrigado, memória). Na verdade, acho que estou viciado em te escrever. Como minhas amizades agora passam por um teste árduo de sobrevivência, e a única pessoa com quem eu me sinto confortável já não tem mais a necessidade nem a vontade de conversar comigo, venho aqui humildemente pedir morada. Sem contar que a situação não permite tanta liberdade entre nós, então a maioria das conversar que temos, fica restritas a alguns assuntos. De vez em quando conversamos sobre nós, mas acho que ambos cansamos de chorar ou de ficar remoendo o passado. Então, acho que só me sobrou você, Tom (desculpe a insensibilidade).
Sábado virou o dia onde eu posso a ver sem que isso torne-se muito estranho. Na verdade, acho que ainda continuar no curso é só uma desculpa para vê-la, ao menos, uma vez na semana. E esse pensamento me levou a outro, que me deixou bastante preocupado. Pelo que entendi, as aulas desse curso que estou fazendo nas manhãs de Sábado terminarão em duas semanas. Assim, o tempo que eu teria com ela por semana equivaleria a exatamente zero, visto que não podemos sair juntos ou algo do tipo. Uma citação que li há um tempo me veio à cabeça logo quando pensei nisso: “Longe dos olhos, longe do coração.”. Não sei de onde é isso, mas não pude deixar de me preocupar com tal possibilidade. Convenhamos: nós temos um mísero tempo por semana para conversarmos cara-a-cara, e mesmo assim ainda estamos a anos luz da intimidade que tínhamos (até mesmo se compararmos antes do namoro). Se esse tempo se extinguir, o que aconteceria? A primeira possibilidade que passa pela minha cabeça é a de ela lentamente me esquecer. Afinal, as férias irão começar, e mesmo que curtas, ainda assim serão um tempo (de provavelmente um mês) no qual teremos um mínimo de contato, nos falando apenas por mensagens (acho que telefone não conta, visto que precisa ter acontecido algo para conversarmos por lá). Nisso, ela terá um bom tempo para descansar e, por que não, curtir a vida. Sem ver a minha cara feia todo Sábado, deverá ter mais intimidade com seu namorado (pararei por aqui mesmo) e essa minha ausência poderá acarretar em uma melhoria em muitos aspectos de sua vida. Resumindo: serei esquecido e ela seguirá com sua vida.
Obviamente, existe também a outra opção, que contraria a anterior. Eu queria realmente que essa opinião tivesse uma mínima possibilidade, mas não sei mais em que acreditar. Digo, um dia estou com cem por cento de certeza que as coisas darão certo e logo tudo voltará ao normal e melhor. No outro, estou totalmente acabado, com uma mísera esperança que às vezes assombra meus próprios sonhos. Não sei como colocar de outra maneira, mesmo que clichê: estou uma montanha-russa de sentimentos. Essa opção consiste na percepção dela que podemos sim reconstruir nosso relacionamento, ou pelo menos começar um do zero (o que se torna difícil com um namorado por perto). Consiste em que nos momentos de ócio, os pensamentos de nós dois a farão acreditar no nosso amor novamente. Porém, sei que para isso acontecer a sorte precisa realmente estar ao meu lado, e que as chances das coisas irem pelo outro caminho são muito maiores (como aconteceu há alguns dias atrás). Me agarro nessa opção com dentes e unhas, todos os dias. Não desistirei assim tão fácil. Não depois de tudo o que passamos.
Espero que dê tudo certo.


Atenciosamente,
Victor Luiz.

Dia 24 de Maio, 2014.

Querido diário,

deixei passar da meia noite depois do meu último texto para fingir que não necessitava escrever para você. É estranho mentir para mim sobre isso. Digo, você é imaginário e não consigo fazer outra coisa a não ser te destinar meus textos. Que tal isso: você vira meu psicólogo e me diz para escrever para você coisas que estou sentindo, a qualquer hora. Acho que assim posso acreditar melhor nisso aqui. Trato feito?
O dia vinte e três de Maio acabou. Acho que todos os dias vinte e três acabaram. Não faz nem um mês que eu os celebrava com alguém importante, e agora estou aqui te dizendo que eles não fazem mais sentindo. Estranho, não? Mas, afinal, o que não é estranho? Sou estranho, para falar a verdade. Minhas ações contrariam totalmente as expectativas da maioria das pessoas que conheço. Quando é pra amar alguém, eu não demonstro. Quando essa pessoa não quer mais que eu a ame, eu a amo e demonstro muito mais do que já demonstrei. Acho que sou realmente louco. O que me diz, sou? Pode me falar a verdade. Percebi que minha mente funciona de uma maneira bastante peculiar, quase que unicamente. Vivo meio que em um universo paralelo, onde tudo está ao contrário. Acharia normal se os carros voassem.
Não te disse, mas acabei ultrapassando alguns limites ontem. Eu fiquei realmente preocupado com ela. Depois de algum tempo sem falar com ela, comecei a ponderar tudo o que podia de acontecer com ela, como se fosse acontecer. Obviamente, havia as opções mais normais, mas acho que isso não existe na cabeça de um paranoico. Tudo o que há de incomum há de acontecer. E foi o que pensei que tinha acontecido. Imaginei que tinha sido sequestrada. Imaginei que tinha sofrido um acidente. Imaginei milhares de cenas, todas minimamente possíveis de se acontecer, mas imaginei. No ápice, procurei por ela de todas as maneiras que conhecia. Liguei para ela. Chamava e caía na caixa postal. Liguei de novo. Mesma coisa. Liguei mais sete vezes. Nada. Mandei mensagem na rede social. Nada. Liguei por Skype. Nada. Finalmente, procurei por amigos dela que podiam saber de algo. Uma disse que ela também não conseguia falar com ela por mensagem. Minha paranoia só aumentou. Falei com outro, disse a mesma coisa. Realmente não sei como não chamei a polícia nesse momento. Eu olhava freneticamente para meu celular, em busca de qualquer sinal dela. Já eram quase onze horas. Normalmente, ela chegava em casa por volta das nove. Procurei pelo telefone dos seus pais. Não os tinha no meu celular, havia trocado de memória. Procurei nos celulares dos meus pais. Nada. Nem o telefone da casa eu tinha. Somente o consegui quando um amigo me deu, após um tempo esperando por resposta. Liguei. Chamou treze vezes (sim, eu contei). A ligação caiu e desligou. Entrei em desespero completo. Ela estava sumida (ou pior) por minha culpa, eu não estava lá quando ela precisava. Eu não estava no telefone com ela quando o sequestrador a levou. Era isso. Eu já imaginava como me comportaria no funeral dela, ou de como seus pais iriam dar a notícia de sua morte para mim.
Ela estava dormindo. Chegou em casa da faculdade e dormiu. Devia ter imaginado (mas acho que não seria eu, né?). Só aí percebi toda a minha trajetória até uma notícia dela. Eu não era nem o namorado dela e tinha quase chamado a polícia para procurá-la. Eu sabia que ela ia ficar com raiva de mim, mas me enganei sobre o motivo. Ela disse que em todo nosso relacionamento, eu nunca havia feito algo do tipo. Nunca tinha corrido atrás dela ao ponto de ficar desesperado com nenhuma resposta. E eu não pude falar que era mentira. O desapontamento dela me atingiu com uma força gigantesca. Eu pude sentir sua tristeza ao falar com ela pelo telefone. Ela não estava com raiva de mim por ter feito aquilo, mas sim por nunca ter feito antes. Ela tinha razão, não havia contestação.
Eu tinha imaginado muitas coisas antes disso (expectativas, como sempre), na maioria assuntos para falar com ela após sua volta da faculdade. O violão que ela sempre quis que eu emprestasse finalmente estava comigo, e eu planejava enrolar um assunto com isso, só para conversar com ela um pouco. Tinha também achado uma sátira bem engraçada sobre sua saga favorita. Ambos os assuntos não duraram três minutos, após tudo isso. Quem podia culpar? Ninguém, a não ser eu mesmo.
Te vejo daqui a pouco. Dependendo de como as coisas forem hoje, ainda devo voltar aqui. Mas, não espere por mim. Pode atender os outros pacientes. Quando for a hora, saberá.


Atenciosamente,
Victor Luiz.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Dia 23 de Maio, 2014.

Querido diário,         

havíamos combinado, há um tempo atrás, que somente voltaria a me referir à você quando eu realmente precisasse. Pois bem, preciso de seus auxílios novamente.
No passado, precisava falar com alguém imparcial que somente me escutasse e que me entendesse, mesmo com todas os meus pensamentos confusos e desorganizados. Desta vez, é isso ou encarar um psicólogo. Porém, ainda não estou preparado para admitir que sou louco. Sou jovem, não posso ser louco. Enfim, pode fazer isso de novo? Sei que faz um tempo, mas me encontro perdido nesse mundo e acho que falar com alguém (mesmo que imaginário) me fará esquecer um pouco de meus problemas. Posso te chamar de Tom? Não lembro qual foi o nome que te dei naquela época. Tudo bem por você? Então, comecemos.
Lembra-se da situação que eu estava? Espero que sim. A festa, Tom. Sim, essa mesmo. Lembrou? Partiremos daí, então. Lembra que fim levou? Pois bem. Continuamos por algum tempo e paramos. Voltamos no ano seguinte, por um caminho levemente conturbado. Vivemos diversas coisas juntos, a maioria muito íntima para eu quebrar o voto de confiança aqui. Enfim, saiba que vivemos belos momentos, que me fizeram muito feliz. Porém, você sabe dos meus problemas. Embora faça muito tempo, alguns ainda permaneceram em mim, meio que grudados à minha alma. O nosso amor era lindo, posso dizer. Lindo mesmo. O início foi como andar sobre pétalas de rosas todos os dias, já que estudávamos juntos. Ficávamos grudados quase que vinte e quatro horas por dia: saíamos juntos, namorávamos juntos, “estudávamos” juntos... Sim, isso me acostumou mal, por um simples motivo: era o nosso último ano de Ensino Médio, então logo mais iríamos tentar entrar em faculdades, provavelmente distintas e isso seria uma barra que teríamos que aguentar. E foi o que aconteceu. Continuamos juntos, mas com uma certa distância criada, sem que nós mesmo quiséssemos.
A faculdade se tornou um grande empecilho em nosso relacionamento. O tempo que antes tínhamos para nos vermos, agora estava restrito aos finais de semana. Tentávamos quebrar isso, mas eu sempre tinha aula às sete e meia da manhã, complicando nossas possíveis saídas noturnas. Você pode ter notado que houve uma abrupta mudança em nossa rotina. Isso gerou brigas, muitas vezes sem fundamentos por ambas as partes, a maioria questionando sobre um realmente querer ver o outro. Se você se lembra bem, em todos os meus relacionamentos eu me entreguei totalmente para o meu parceiro, inclusive para ela quando tivemos o nosso breve, antes. Sim, fiquei relaxado. O fato de ela me amar o tanto quanto me amava me dava uma margem de comodismo relativamente grande. Assim, na minha cabeça sempre conseguíamos resolver nossas brigas, o que não era verdade. Todas as mudanças que pedíamos do outro raramente aconteciam, principalmente com as personalidades fortes de ambos. Sendo assim, deixávamos muita coisa rolar, o que ocasionou em brigas muito mais sérias e igualmente sem resultados. Se você me perguntar, posso até dizer que guardávamos um certo receio no fundo de nós. “Se nada está mudando, um de nós não está fazendo o que deve”. Se era verdade? Realmente não sei. O que sei é que chegou ao ponto de que, principalmente ela, ficamos exaustados com o nosso relacionamento. Até tentamos dar um tempo, à fim de mostrar um para o outro o quanto era importante na vida de ambos, mas em vão.
Obviamente, isso foi um choque emocional tremendo para mim. E sei que para ela também foi, mesmo que ela tenha dito que já sabia que isso iria acontecer. Sim, eu tinha ideia da possibilidade (grande) de acabarmos (principalmente pelos meus erros contínuos), mas acho que no fundo eu não acreditava que isso iria acontecer. Afinal, imaginava-me junto dela até nossa morte. Mas, isso não tira minha culpa nesse término. Com somente algumas palavras diárias, eu podia ter salvado esse relacionamento, e podia até fazer com que ele não precisasse ser salvo. Eram coisas simples que eu simplesmente passei por cima. Assim, toda vez que eu o fazia, eu a magoava, até que ela cansou de ser magoada.
Na mesma semana de nosso término, um rapaz apareceu na vida dela. Não vou dizer que realmente apareceu, até por quê já estava na vida dela, mesmo que há pouco tempo. Ela estava sozinha e magoada, e achou no colo dele um refúgio para tudo aquilo que eu a causei. Justo. Não posso reclamar. Começaram a namorar e até agora estão juntos. Onde estou nisso tudo? Metade de mim quer que ela dê certo com esse cara. Quer que ela tenha uma felicidade que não encontrava comigo há tempo, mesmo que não seja com ele, ou comigo. Essa parte, a apóia totalmente em sua decisão e espera que eles possam ficar juntos até ela se sentir confortável. Também acredita numa reconciliação (mesmo sabendo que novas situações podem surgir, muitos delas ferindo meus próprios princípios), mas a respeita ao ponto de deixa-la fazer suas próprias decisões. Acha que deve isso à ela, depois de tudo.
Eu queria poder dizer que não há um outro lado meu nessa situação. Mas existe. O lado magoado. O lado que não aceita tudo isso que aconteceu e que implora diariamente pela volta da amada. O lado que pensa em ligar de cinco em cinco minutos para ela, perguntando aonde está, se está bem, com quem está, simplesmente por não conseguir ficar bem se não fizer isso. O lado que também faz com que eu imagine coisas que eu não deveria (sei que você sabe do que eu estou falando), pelo menos para manter minha sanidade. Esse lado ignora completamente que agora ela tem um namorado, e que não sou eu. Ignora que ela precisa de espaço e que eu não tenho mais o direito daquela liberdade que antes tanto tínhamos um com o outro. Ignora que ela seguiu com a vida dela.
Hoje é dia vinte e três de Maio, de 2014. Se ainda estivéssemos juntos, estaríamos juntos há dois anos e um mês. Eu tentei me preparar para esse dia, para todas as lembranças e memórias que esse dia iria me trazer. Parece que não foi o suficiente. Mas, estou tentando. Essas horas que passei aqui conversando com você me ajudaram a ficar com a mente um pouco ocupada, ou pelo menos desviá-la das coisas que eu não quero pensar. Não posso te prometer que amanhã voltarei aqui com você, mas garanto que ajudou bastante. Obrigado. Por tudo. Até logo, Tom.


Atenciosamente,
Victor Luiz.